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quarta-feira, 10 de março de 2010

Mulheres Metropolitanas

 São Paulo é a cidade do plural. Um dos poucos lugares que escancaram multiplicidade em um País tão conservador. Metrópole com milhões de almas apressadas, que caminham rápido demais para se ater a detalhes alheios.

É tanta pressa e tanta diversidade que São Paulo se faz automática. Venho observado um automatismo na maneira de pensar e peço licença ao leitor que veio aqui ler mais sobre a cidade para abrir mais o tema da postagem e falar de suas mulheres.

Ontem, Dia Internacional da Mulher, fui surpreendida por uma cena de desrespeito no metrô. Um jovem rapaz se aproveitava do empurra-empurra para passar a mão no derrière de uma moça. Ela, aflita, desceu na estação – particularmente, nem sei se era a estação correta que ela iria desembarcar. O jovem então girou 180° e passou a fazer o mesmo com outra mulher, que se espremia no apoio de mãos para se afastar.

Enquanto manifestava meu repúdio, seja em redes virtuais ou pessoalmente a alguns colegas de trabalho, pude perceber que São Paulo não é tão plural para nós, mulheres. Julgamentos do tipo “por que ela não fez um escândalo? É impossível que alguém não perceba que estão passando a mão na sua bunda, é preciso ver os dois lados”. Mais: “Vocês, mulheres, querem direitos iguais, mas se fazem de frágeis”. Pior: “Que mal tem fazer isso? Vocês deviam se aproveitar dos homens, também”. Pensamentos tão machistas que, de tão impensados, parecem normais.

Assim a cidade se revela não diversa. Contraria as calçadas da rua Augusta, tomada pela diversidade sexual e retrocede centenas de anos para um cenário no qual as pessoas são discriminadas apenas por não possuir um pênis. Paulistanos que pensam tão automaticamente, que vivem no stand by e não percebem o disparate de tais afirmações que me inflamam a escrever esta postagem que se disvirtua da linha editorial do SP em Pauta.

Vou além. [E, novamente, perdão leitor interessado nas pautas paulistanas] Tessália, a twitteira que saiu do BBB para a capa da Playboy, tem sido alvo de críticas no microblog que a consagrou por causa não do ensaio, mas sim de seu corpo magro. De seu mamilo. Da maneira com que se depila. Que mundo é este? Que ignora vontades pessoais, que submete às mulheres serem apenas a reprodução bizarra e ter os pelos pubianos padronizadamente depilados? Quem disse que tem que ser assim?

Ser mulher metropolitana e se orgulhar de São Paulo tem sido difícil. O que é ser Mulher daquele tipo poderosa, que desperta orgulho e vai parar nas capas de revista? A gostosa em sua forma mais homogênea de padrão de revista masculina, que dita como você deve ter seus mamilos e sua depilação? Ou aquela mulher soberana, que dá conta de casa-trabalho-filho e sorri de cabelos esvoaçantes na capa de Nova?
 
Acredito que ser Mulher, assim com M maiúsculo e independente, é muito mais que exigir direitos de igualdade. É ter poder de escolha, é se fazer marcante merecidamente de acordo com o que inspira. Seduzir quando há vontade, pagar suas contas com o esforço da labuta, sentir prazer em qualquer coisa que lhe convém.

É ser diferente dos homens.  Porque somos! Temos um aparelho reprodutor diferente, com hormônios diferentes. Somos fisicamente distintos, onde estão as feministas? É agir de acordo com sua consciência.
É celebrar rugas, rir do passado, vislumbrar o amanhã e não querer ser igual a ninguém – apenas conquistar o que é seu.

Observo, argumento, grito, escrevo. Não me calo: mantenho a seriedade, mas sei seduzir e usar batom. Mulher metropolitana é quem não engole desaforo, por mais revoltante que a sociedade possa lhe parecer.

Feliz dia, mulher.


desenho de: Halvor Skjemteland






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Depois de um hiato mensal... Voltei. Não dava mais para aguentar.
Vomitei ideias neste editor de texto.

3 comentários:

HugoBenjamim disse...

Gabriela,

Gostei muito da sua forma de escrita.
De vez em quando, passeio na net visitando blogs de forma meio que aleatória e, numa dessas voltas, encontrei o seu.

Bom texto, bom vocabulário, boa estruturação de ideias... sugere uma otima profissional na area que atua.

Quanto ao texto:
Aquele animal que estava fazendo aquilo no metrô me envergonha como homem e me faz refletir se estou agindo de maneira respeitosa minhas amigas e mulheres em geral.

Não sou sexista. Admiro muito as mulheres e reconheço o seu valor e também tenho pena quando as proprias não têm consciência de sua relevância na vida de toda a sociedade ou quando se depreciam.

A sociedade nos impõe modas, posturas que muitas vezes discordo (não só o que querem nos impor mas o simples fato de nos imporem algo) e esses padrões estéticos parecem ser bons exemplos disso. (não vejo BBB :p )

Beijão...
Parabéns

gabism disse...

Obrigada, Hugo. Continue visitando, vou tentar postar sempre.

gabism disse...

sempre não vou conseguir. Vou tentar postar mais.