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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O que aprendi com uma discussão no Facebook

Depois de dois dias, 78 "curtir", 116 comentários e algumas (muitas) trocas de farpas na minha última publicação do Facebook, fiquei com vontade de fazer algumas considerações sobre discussões políticas em redes sociais.

Começou com minha indignação com o transporte público de São Paulo, ao chegar no metrô às 9 horas da manhã, ou seja, fora do horário de pico, como faço todas as manhãs para ir ao trabalho. Nesse dia, em especial, tinha um compromisso e não poderia atrasar. Saí com 1h40 de antecedência de casa, optei pelo transporte público em detrimento do táxi (que seria pago pela empresa para a qual trabalho) justamente por ter a consciência do trânsito dessa cidade e também porque tempo inútil e caro dentro do carro parado na rua não é nada inteligente. Ao menos para mim.

E então eu escrevi, ali de pé, o seguinte:

clique para ampliar.

E esperei a magia acontecer. Sabia que ia rolar briga.



A partir de agora, vou elucidar alguns pontos que andei refletindo depois da reação de amigos (muitos).

1. Apesar de a revolta ser importante como agente de mudança, ela dificilmente será boa em uma publicação na rede social.
Claro que estava revoltada. Todo dia eu reclamo mentalmente de um serviço público pago que uso diariamente, sei muito bem como funciona. E explodi no post. Meu ponto, ali, era sobre a violência que a gente sofre todo dia, e ainda por cima tem que ouvir dos responsáveis pelo Metrô que "não está acontecendo nada". Óbvio que estava. Óbvio que a comunicação da instituição não estava sendo transparente, estava sendo honesta, muito menos respeitosa e sincera. com essa resposta, o Metrô de SP olhou para minha cara e me chamou de IDIOTA.

Dado que o planejamento das linhas e a operação daquela em especial cabe ao governo estadual, competência governada há 20 anos pelo PSDB, meu raciocínio é simples. Como fazer algo IGUAL vai gerar em MUDANÇA se nesse tempo todo a expansão do serviço foi pífia frente aos índices de crescimento da cidade???

Isso sem mencionar, claro, as recentes descobertas de desvio de milhões de reais de empresas envolvidas nas licitações, encabeçadas pelas lideranças paulistas do partido.

A diferença é que essa revolta toda já estava catalisada. NÃO VOTAREI NO PSDB. De novo, não. Tiveram 20 anos de chances e no ponto que eu considero o mais importante de São Paulo, o transporte, fizeram tudo errado.

Não precisa me excluir caso você esteja pensando no PSDB, óbvio. Contudo, acho que ainda considerar essa opção frente a esses fatos apresentados é estúpida. Desculpe. Eu acho SUA OPÇÃO uma estupidez sem tamanho. Ponto final.

2. A política como futebol. Não, obrigado.

Só que aí eu toquei no ponto crítico de algumas pessoas. Trouxeram o PT à tona. Gente, eu sequer mencionei o PT. Também acho que o caso do mensalão foi gravíssimo, acho também ridículo que as pessoas façam um rateio para que os responsáveis por esse esquema tenham suas fianças multas estabelecidas pela Justiça pagas e saiam da detenção. Só que a questão é que ISSO NÃO VEM AO CASO.

Contudo, ao criticar o PSDB, como se estivéssemos falando de futebol (usando uma metáfora que usaram comigo para criticar minha postura, justificando a reação das pessoas a isso), é como se fossem duas torcidas, porque são os partidos de maior projeção e que dividem com ódio boa parte da população. Ao criticar um, subentende-se que você está apoiando outro e por isso você está sendo 'errado', 'equivocado', enfim, insira sua palavra aqui. A "torcida" oposta passou a atacar o PT nos meus comentários como se eu fosse PTista. Como se minha revolta estivesse dando o PT como opção para o governo do Estado.

NÃO, GENTE. NÃO.

Primeiro: tratar a política como futebol eu considero no mínimo preocupante, porque a paixão pelo futebol é irracional e a política deve ser racional. Pensada. Planejada. Exercida com consciência, diferentemente do futebol, que é entretenimento, diversão, alegria, provocação, paixão, emocional. Política não deve ser emocional. Assim como chamar um palmeirense de "bi da segunda divisão" e ele responder para mim "cala a boca, gambá" é sem sentido, faz parte do jogo de provocação e zoeira, política encarada nesse nível de opostos a coloca no nível da... ZOEIRA.

E, desculpa, posso não ter todo o conhecimento político do mundo, mas não encaro isso como zoeira. De maneira alguma, para meus valores, problemas sociais, econômicos, de cotidiano, todos relacionados às decisões políticas e administrativas da esfera pública, deveriam ser debatidos e encarados dessa forma.

Esse comportamento eu acho ainda mais estúpido ainda do que votar no PSDB mesmo vendo a ineficiência do transporte. Porque, sei lá, vai que esse cara concorde com a ideologia do partido, mas reconheça a cagada que ele tem feito no governo, mas mesmo assim considere-o como a opção menos pior, sei lá. Ainda tem um ponto de argumento nisso, mesmo que eu discorde.

Agora sair apontando o dedo para a estrela vermelha, na minha opinião, numa situação dessa, é completamente irracional e mostra a maneira com a qual a pessoa encara a política. E a discussão.

3. Vencedores x perdedores

As pessoas entram numa ~treta~ de internet, no geral, para expor suas opiniões. Não para trocar ideias. Comentário bom é aquele que concorda com o que você falou. Se o cara discorda, ele é babaca, ignorante, burro, idiota, imbecil, filho da puta, vagabundo, ... ... ... .

Eu sinceramente acho que essas pessoas também não tem noção argumentativa. E mesmo quando tentam usar argumentos, não usam análises, mas dados puros. E se espantam, não aceitam, quando as pessoas têm interpretações diferentes de um mesmo contexto.

Vem cá, vou te contar uma coisa: o mundo é muito mais complexo do que uma briga do bem contra o mal.

Números não dizem nada sozinhos. Como o universo da TI me ensinou (sou jornalista de tecnologia), softwares analíticos dão apenas os dashboards. É difícil para caramba encontrar um bom cientista de dados que consegue primeiro mineirar esses números para ver quais interessam, quais podem ser relacionados, e o que eles estão dizendo. Só então tomar uma decisão.


4. Negar o debate para "propor soluções"

Não dá para propor soluções sem discutir ideias. E se você considera as ideias inválidas porque elas são diferentes das suas, você pode até discursar bonito e dizer que "não vai discutir mais porque Fulano não está evoluindo o debate". Gente, estamos falando do governo do Estado de São Paulo. Os problemas não vão ser resolvidos numa caixa de comentários do Facebook!!!

Até porque mesmo que a pessoa propusesse uma puta ideia legal, ela iria passar pelo seu julgamento (e voltamos ao ponto anterior - você concorda é uma ótima ideia; você discorda, é uma merda). E também ela não tem o poder de colocar a ideia em prática.

Exemplo prático: eu acho que tinha que ter estação em todos os bairros de São Paulo, alguns bairros com mais de uma estação. E que algumas linhas deveriam ser circulares para não obrigar todo mundo passar pelo mesmo lugar, como o centro, para realizar qualquer deslocamento. E também acho a passagem cara.

Lindo, maravilhoso, perfeito. Só que não dá para eu fazer isso. Nem ninguém que se eleger irá fazer isso. E eu não estou debatendo nada colocando essa minha opinião. É só minha opinião, utópica, inválida e vazia.

5. Cair no vazio de que "todos os partidos são corruptos"

As discussões políticas, quando caem aqui, caem no limbo do vazio, do nada. Ser apolítico é perigoso.

Deixa eu te contar outra coisa: partidos são feitos de pessoas. Você é uma pessoa (!). Você não é especial, você não é 100% íntegro, você não está acima de todos os cidadãos. Você é responsável também pela corrupção alheia e seu mecanismo de defesa e ação, no momento, é o voto.

E sobre os pequenos delitos, eu encerro esse post com um vídeo sobre o peso dos pequenos delitos, que no fim das contas é muito maior que os grandes delitos políticos.



Em tempo: Estou há 57 dias sem discutir no Facebook. Eu não discuti no tópico. Eu adoro debater, mas estou deixando minha contribuição em Fan Pages focadas em assuntos direcionados porque é de se entender que as pessoas ali estão mais propensas a realmente usar argumentos, análises, ideias, compartilhar conteúdos, tudo isso direcionado a um assunto. Política nem é meu tópico preferido nas discussões. Me falta conhecimento (mas isso não impede ninguém de fazer política, eu sei :) )

Mas, mais uma vez, se quiserem debater na minha página... Fiquem à vontade. Se quiserem mesmo saber o que penso, respondo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

História se faz na rua [ou os protestos, parte II]

O dia 17 de junho de 2013, segunda-feira, já será marcado por levar às ruas, como há muito tempo não se via no país, milhares manifestantes protestando em uníssono, ao mesmo tempo. Em São Paulo, o Datafolha estima em 65 mil participantes - eu, lá no meio, sinceramente, asseguro com base no preciso sistema de medição Olhômetro que havia mais que isso. Bem mais que isso:

_início da concentração, no Largo da Batata. Foto: Miguel Schincariol/AFP
_Parte dos manifestantes na Avenida Paulista, quando o movimento dispersou para a ponte Estaiada e o Palácio (?) dos Bandeirantes. Foto: Márcio Fernandes/Estadão Conteúdo 

E vale ver as imagens aéreas da TV Folha:



Enfim, queria continuar a exposição de minhas ideias com base no entendimento no que estou lendo e acompanhando entre meus amigos próximos/participantes do Movimento Passe Livre (MPL) e também baseadas nas reações dos mais diversos perfis de coleguinhas. Nunca é demais ressaltar:

1. Não são R$ 0,20; mas também não é "corrupção"
Digno o apoio de todo mundo depois da covardia da ação da PM na quinta-feira, 13, descendo chumbo na geral. Foi um recado de que eles não podem calar insatisfações e manifestações, e todo mundo tem uma - seja a inflação, a corrupção dos reaças, etc. Como disse no post anterior, "diversos interesses que nasceram com nossa incapacidade de conseguir o que queremos".

O movimento possui, porém, um propósito. Não são 20 centavos (são 40, porque é ida e volta), mas ainda é o transporte público de qualidade. Começa que a raiz desse problema engloba a corrupção e desvios de verbas entre os consórcios que exploram cada atividade do transporte, a terrível condição do trânsito da cidade, a superlotação e tratamento desumano de todo mundo dentro de um veículo abarrotado de gente, a falta de corredores de ônibus e linhas de metrô, o tempo que se gasta para se deslocar de uma área a outra - decorrente do péssimo [ou seria ausência de?] planejamento urbano que concentra centros empresariais e econômicos em áreas de elite e segrega pobres, pretos e marginalizados em áreas distantes.


_minha visão no metrô e no ônibus, respectivamente. @stripolias

ESSA é a causa do protesto. ESSA é a situação que exige uma ação imediata, a começar pela revogação do aumento da passagem, já abusiva. Claro que queremos mais educação, saúde, menos desvio de dinheiro de Copa, o fim da inflação (que prejudica mais os pobres que os classe média, vale frisar), e [quase] tudo aquilo que os textos circulantes nas mídias sociais falaram. Mas mesmo o lado direitista das ruas - sim, ele existe, e a diversidade de pensamento faz parte do processo democrático - é afetado por essa questão do transporte público e deve sim se informar e abraçar a causa. Você, playboy, que saiu à rua ontem, pense que o trânsito seria menor se todo mundo pudesse ir e vir coletivamente, acomodado, melhor. E até você, empresário, produziria bem mais e teria um ambiente de trabalho bem melhor se seu funcionário não se espremesse duas horas no transporte para chegar à empresa.

2. Manifestação não é festa
Me incomoda o clima de festa. Acredito que gritos bem humorados são importantes para deslegitimar autoridades como a PM e até mesmo para grudar na cabeça das pessoas. Acredito que o humor faz pensar, o humor quebra barreiras do que costumamos colocar num pedestal como algo inalcançável, ou uma situação política opressora, tirando sarro do lado mais forte, claro.

Mas manifestação não é festa!

É reivindicação! É busca de direitos! É a criação de uma situação tensa para que os tomadores de decisão não vejam saída senão FAZER ALGUMA COISA! Não é pintar o rosto e sair bonitinho para ~postar a fotinha no Instagram~, é gritar, é explodir sua raiva no grito.

Reafirmo minha posição favorável a pichações políticas, a exemplo de stêncils, para deixar rastro e captar aquele cara que está esmagado dentro do busão, voltando para casa no dia seguinte, e despertar nele sua revolta.

3. Pluripartidário, não apartidário ~meu ponto polêmico do post~
Ouvimos muito essa história de que o movimento não tem partido, e algumas pessoas inclusive tentaram abaixar as bandeiras do PSTU, PSol, PCO, PC do B que se levantavam à frente do movimento.

Acho essa atitude totalmente anti-democrática.

Historicamente, esses partidos esquerdistas [e nanicos, convenhamos] fazem importante oposição aos governos do PT e PSDB, polarização majoritária do cenário político brasileiro, que jogam as regras do jogo de alianças conforme interesses elitistas. A democracia, a rua, é muito maior que um movimento estudantil. Óbvio que eles representam uma minoria. Óbvio que nem todo mundo tem partido, e que a maioria é sem partido. Portanto, a realidade é pluripartidária, não apartidária, e impor um cale-se, seja a ele quem for, é anti-democrático. Levante um cartaz "sem partido", "paz pluripartidária", "política se discute ideias", sei lá. Sejam criativos.

4. Sofativismo é importante

Olha, nem sei se precisaria desse tópico, mas ainda tinha gente na minha timeline de mimimi hoje sobre isso. Olha, usando a metalinguagem, se não fosse a web não seria possível ter discussões de ideias e exposição de imagens cruas e sem edição como estamos vendo até agora.



Eu sequer seria capaz de ler tudo que eu li da fonte original do MPL sem ter que me deslocar até uma de suas reuniões! Claro, existem algumas fontes cujas opiniões vão mais longe por conta de sua influência, essas têm um peso maior que meus textos e reflexões, por exemplo. Mas o poder de disseminação da rede é inegável - principalmente quando ele sai do online e chega no offline.
Atenção: são debates de ideias. Não reclamações infundadas.

5. Ações injustificadas não deslegitimam o movimento
Infelizmente, há atos de vandalismo e eles são claramente minoritários. Enquanto escrevo este texto, acompanho imagens de um carro link da Record sendo incendiado. Simplesmente ridículo e inócuo em termos de efetividade.

Sério, não sejamos ingênuos e acreditamos na ~mudança de opinião repentina doJabor~, que historicamente sempre defendeu ideais elitistas. Mas isso se combate com IDEIAS, usando a rede para disseminar relatos, debates.

Essas ações, contudo, não deslegitimam a manifestação como um todo, porque a causa [ver item 1] continua lá, não resolvida, e a ampla maioria propriamente condena esses atos. Igualmente vergonho agredir policiais, tão vítimas quanto nós, de um sistema falho e ineficaz. Afinal de contas, mesmo aqueles PMs que pensam bosta e acham que tem que meter bala em todo mundo, são seres humanos. Pensar em meter balas neles nada mais é do que fazer o que deles criticamos.

Aproveitando: segue a foto de uma dessas pessoas que encabeçaram destruições desmedidas. Está circulando no Facebook, tomara que achem e identifiquem esse imbecil. [viva, de novo, a sociedade digital. Todos nós temos uma câmera na mão]



6. Ainda estamos aprendendo (e cuidado com o que você deseja)
Não sabemos direito onde isso vai chegar. Não sabemos o que é protestar de fato desde quando? 1992, Impeachment do Collor? São tentativas. Melhor do que ficar reclamando nas redes sociais, como ainda tem gente falando "ah, não vai dar em nada"; ou "um bando de desocupado".

Não vamos usar isso para pedir causas absurdas. Já vi gente falando "Fora, Dilma" que, além de ser completamente desconexo com a questão do transporte, representa uma ação que não gera solução nenhuma. E importante:




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Eu, Gabriela, jornalista de tecnologia, 26 anos, saí do trabalho às 17h30 para ir à praça da Sé, mas não consegui porque um "problema" em composição na estação Morumbi, da CPTM, interrompeu a circulação de trens por mais de 40 minutos. Às 19h, depois de um ônibus absurdamente lotado e uma fila de 20 minutos para entrar na estação Faria Linha, metrô, linha amarela, me deparei com apenas UMA CATRACA de saída nas estações Sé e São Bento, região central de São Paulo. Vim pra casa e escrevi este post.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

São Paulo já parou

Sempre fui simpática a manifestações, preguiçosa demais para participar, me envolvi em poucas quando fiz o Ensino Médio na ETESP e em uma na universidade, na Unesp. Desta vez, sem preguiça.

Não, não fui para a rua [ainda]. Das primeiras vezes, não estava em São Paulo. Na última quinta-feira, estava trabalhando no Transamérica Expo Center, extremo sul de São Paulo, em um dia com greve de transporte público. Não consegui chegar. Não deixei, contudo de participar - lendo, conversando com as pessoas, me informando, disseminando informações online a apoiando colegas que lá estavam, dando a cara para bater. O intuito deste texto é me posicionar publicamente sobre o que estamos vivenciando e responder questões que surgem aos opositores de Facebook.

1. Entenda os R$ 0,20.
O sistema de transporte público em São Paulo é operado da seguinte forma: a prefeitura dá a concessão dos ônibus a empresas privadas, por meio de licitações. Cada uma delas é responsável por uma zona da cidade.  A empresa administra, além do valor das passagens, um subsídio recebido da administração pública.

O objetivo de qualquer empresa privada é o lucro. Portanto, explorar o lucro em cima de um direito fundamental significa cobrar mais da prefeitura (o subsídio aumenta) e cobrar mais das passagens (a tarifa aumenta). Logo, a cada reajuste, não se engane - estamos pagando duas vezes, afinal, o orçamento público vem de nossos impostos.

O Movimento Passe Livre (MPL) critica fundamentalmente esse modelo de negócio. Não podemos servir a interesses privados e lucrativos quando o que está em jogo é uma atividade cuja concepção em si deveria ser direito de todos. Ir e vir.

2. Transporte de graça
Seria lindo transporte de graça, como prega o MPL. Não, não é utopia- essa política é praticada totalmente em Agudos (interior de São Paulo) e parcialmente em países como a Holanda (onde estudantes da União Europeia, e não só holandeses, trafegam em trens, inclusive intermunicipais, gratuitamente), por exemplo.

Obviamente, estas políticas não foram implantadas do dia para a noite. É inviável pensar que, de repente, 19 milhões de moradores da região metropolitana de São Paulo iriam andar de metrô e ônibus de graça. Porém, é preciso repensar o modelo acima para ao menos termos as tarifas reduzidas substancialmente ao mesmo tempo em que melhoramos a qualidade da mobilidade nessa cidade. Não é utopia o que prega o MPL, existem exemplos que, se não devem ser espelhos para serem copiados integralmente, podem ser usados de inspiração para motivarem uma melhora.

3. Mobilidade em São Paulo?
A qualidade do transporte público de São Paulo não é tão ruim quando analisados os veículos em si. Temos metrô e trens modernos com ar condicionado. Temos ônibus relativamente novos e bem conservados - quando comparados a países como Argentina e Uruguai, onde estive recentemente. Lá, os veículos são velhos, muito velhos. Barulhentos. Mal conservados.

O problema é que não há mobilidade em São Paulo. A falta de qualidade no transporte público é porque ele é caro e ineficiente. A malha ferroviária não cobre regiões importantes da cidade, as conexões entre linhas é tumultuada. Não quero dar números para balizar esses argumentos - basta olhar as fotos abaixo.

Metrô:



CPTM:




Eu chamo carinhosamente de Carnametrô e CPTM Folia, respectivamente.

Em vez de se espremer assim, muitos optam por dirigir seus carros. Afinal, o crédito para se comprar um automóvel é acessível. Carros zero são cada vez mais baratos. O carro faz parte do sonho de consumo da cultura nacional. O problema é que não cabe tanto carro na rua. Batemos recordes consecutivos de congestionamentos. São Paulo já é parada.

Quando o trânsito para, os ônibus também não andam. Se você cria corredores, você trava o trânsito. Sem corredores, trava todo mundo. Dentro do busão, tudo extremamente lotado. Ou seja: você paga caro para não se mover. Não é cheio, é lotado, nas mesmas (ou até piores) condições acima.

O transporte público de São Paulo é ruim porque ele não faz o que deve fazer com eficiência: deslocar pessoas de um ponto a outro na cidade, em tempo hábil.

___________________________uma pausa, rapidão.
Como melhorar essa situação? Vem cá, Haddad, senta aqui, vamos discutir as tarifas do busão. Vem cá, Alckmin, por que raios você não dá uma acelerada nessas linhas novas que estão travando as ruas pros carros, e ainda não prontas para transportar gente debaixo da terra? Vamos tomar um café ali na Paulista, pra gente conversar.

Obviamente, isso não acontece. É delirante. E aí surge a necessidade de ir às ruas. Chamar a atenção para toda essa situação. Tudo dito até aqui é a essência do primeiro movimento. Mas já estamos no quinto ato! Vamos continuar.

4. Quero chegar em casa logo! Esse bando de baderneiros!
Quando você vai para o centro, para uma área economicamente ativada cidade, você afeta as pessoas ao redor. Na teoria, elas tenderiam a querer saber o porquê da manifestação tão inflamada. Infelizmente, aprisionados pela estafa de um dia de trabalho e com argumentos dados pela cobertura midiática, o transtorno individual se sobressai em meio ao esforço coletivo.

Ora, se o transporte (público e trânsito particular) melhorasse, as pessoas chegariam em casa rapidamente e com conforto.

5. Ok, entendi e apoio! Mas vão protestar na prefeitura, na sede do governo.
Concordo. Temos que fazer barulho para as autoridades, pressioná-las. Acontece que, àquela ocasião, elas estavam em Paris, defendendo a candidatura paulistana para sede de uma feira de comércio internacional, que traria gasto para a cidade com a visita de executivos do mundo todo.

Ademais, queremos você conosco. Queremos que vocês se misturem a nós. Aliás, na última quinta-feira, 13, havia um acordo com a Polícia Militar sobre não ocupar a Prefeitura ou o Estado. Isso foi respeitado, para evitar o confronto com o braço armado do estado. Você discordaria de alguém que aponta uma arma para você?

6. Mas para quê quebrar tudo?
Na estimativa da PM, havia 4 mil pessoas nas ruas. O estrago causado, algumas agências bancárias quebradas, algumas estações de metrô depredadas, foi de responsabilidade de uma minoria. Se as 4 mil pessoas realmente estivessem ali para quebrar tudo, certamente, obviamente, as leis da física nos fazem claro que o estrago seria MUITO MAIOR. Ninguém quer destruição de coisas particulares ou públicas. Afirmo seguramente que quem causou a depredação forma uma quantidade pífia frente a quem legitimamente protestava.

Agora, dois pontos polêmicos:
Pichações. Sou a favor de rastros nos muros com pichações políticas. Quando estive em Madri, Paris, Barcelona, Berlim, Londres, Buenos Aires e Montevidéu, vi os muros inflamados de diversas mensagens políticas. Não vejo de todo o mal - as pessoas olham, leem e refletem. Sei que há muitos que discordam comigo nesse ponto, e acho válido discordar, até porque muitos pichadores ultrapassam o limite da mensagem política e realmente depredam bens públicos. Mas as frases e mensagens são fotografadas e espalhadas pelo mundo. É uma maneira de fazer nossa voz falar mais alto e chegar mais longe.

Piquetes com fogo. Eles são feitos geralmente ao incendiar o lixo, para conter o avanço da tropa de choque da PM e da ROTA. Vou tratar da abordagem policial posteriormente. Para quem não sabe, são as forças de repressão e truculência máxima da Polícia Militar, que vão varrendo as ruas em cordões de isolamento com escudos e cassetetes, ao som de batucadas marciais. Na segunda "camada" de pessoas, a artilharia de bombas de gás. Essa estratégia é para desmantelar e dissipar manifestações. Calar a voz. Como contê-los? Como evitar essa ação violenta, que soa como - ok, até aqui vocês brincaram de protestar, agora já deu, não deixamos mais. VOLTEM! Resposta: com piquetes de lixo. Até onde vai meu discernimento, não acredito que queimar lixo é um ato de vandalismo. Destrói-se o que já foi descartado.

No geral, o que vejo é que existe sim vandalismo. Eles são, contudo, minoria, e usados para desmoralizar a causa e o protesto como ele é realmente realizado. E ao contrário do que se possa imaginar, não causam um prejuízo milionário equiparável à quantidade de perdas causadas pelo trânsito parado, pelas bombas explodindo, pelas vidas machucadas.

7. Por que não votam direito? Agora é tarde para reclamar.
Não, não é tarde. O exercício democrático não significa apenas apertar botões de dois em dois anos. Não interessa em quem você votou - é importante entendermos que não temos que seguir leis do governo porque o governo manda no povo. O governo serve o povo. Nós somos o patrão. Nós mandamos. Mesmo sem votar no Haddad e no Alckmin (e aqui eu atinjo diferentes e distantes perfis de paulistas e paulistanos, esta não é uma luta partidária contra PT ou contra PSDB), você tem direito de cobrar de AMBOS uma atuação justa e que eles atendam os seus interesses. ISSO é democracia, que implica também obrigações a você, eleitor.

8. A gota d'água
E aconteceu. O gigante acordou. Um monte de gente saiu às ruas primeiro por causa do transporte, mas de repente, outros cartazes foram erguidos. Corrupção, educação, pedindo qualquer coisa, menos um aumento de passagens de uma coisa que não funciona e deveria ser mais barata. A meu ver, as pessoas se deram conta desse poder e da necessidade de se reivindicar ao ver especialmente as imagens da truculência policial. A rede por si só deu conta de disseminá-las:

a. Polícia atira em poucos manifestantes que pediam "sem violência":




b. Polícia atira bomba de gás em apartamento onde moradores filmavam manifestação:
Link (não consegui integrar o vídeo)

c. Jornalista da Carta Capital é preso por portar VINAGRE:



 d. Polícia atira na imprensa:



e. Policial quebra vidro da própria viatura:


 d.  Imagens que falam por si mesmas:







Nesse momento, percebemos que o movimento perdeu o controle. O próprio MPL não possui tanta gente assim em sua base e, de repente, todo mundo que se manifestasse se tornou alvo de violência. As pessoas começaram a ser convocadas para protestar por diversas razões, unindo-se àquelas que perceberam que o aumento de R$ 0,20 e a inaptidão de negociar interesses públicos também esbarra a solução de diversos problemas estruturais os quais lemos, convivemos, engolimos cotidianamente. Isso tem uma explicação econômica, como foi abordado em excelentes textos, como este aqui, do Alexandre Versignassi, da Superinteressante. A CNN resumiu bem:

O Brasil está, atualmente, tendo a experiência de um colapso generalizado de sua infraestrutura. Há problemas com portos, aeroportos, transporte público, saúde e educação. O Brasil não é um país pobre e os impostos são extremamente altos. Brasileiros não veem razão para tanta infraestrutura ruim quando há tanta riqueza altamente taxada. Nas capitais estaduais, as pessoas gastam até quatro horas diárias no trânsito, seja em seus carros ou em transporte público lotado de péssima qualidade.

O governo brasileiro tomou medidas remediais para controlar a inflação ao cortar impostos e não percebeu ainda que o paradigma precisa mudar para uma abordagem focada em infraestrutura. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro está reproduzindo em menor escala o que a Argentina fez há alguns anos: evitar austeridade e prever o aumento das taxas de juros, o que está levando à inflação alta e crescimento baixo.

Além do problema de infraestrutura, há diversos escândalos de corrupção que permanecem sem julgamento, e os casos sendo julgados tendem a terminar com absolvição dos réus. O maior escândalo de corrupção na história brasileira finalmente terminou com a convicção dos culpados e agora o governo tenta reverter a decisão da justiça usando manobras por meio de inacreditáveis emendas constitucionais: a PEC 37, a qual anula o poder investigativo dos promotores do Ministério Público (equivalente brasileiro aos District Attorneys norte-americanos), delegando a responsabilidade de investigação totalmente à Polícia Federal. Além disso, outra proposta busca submeter as decisões da Suprema Corte ao Congresso - uma completa violação dos três poderes.

Esta são, de fato, as revoltas dos brasileiros.

É no mínimo curioso que um veículo de mídia norte-americano conservador em sua essência reflita e exponha diversos interesses que nasceram com nossa incapacidade de conseguir o que queremos. E enfrentar a violência policial, como não vemos desde a época da ditadura brasileira.

9. Sou cagão. Até apoio, mas tenho medo de me machucar. Ou preguiça.
Eu sinceramente sugiro que você vá observar. Chegue na concentração e observe a atmosfera. Olhe, de longe, os manifestantes. Presencie, sem filtros, quais os anseios e o meio de atuação de todo mundo que dá a cara para bater. Não precisa marchar - entendo e compartilho do medo depois de ver imagens de violência como vimos. Mas presencie e PASSE ADIANTE nossos motivos. Desde a raiz da motivação, até nosso principal mote agora: o direito de manifestar.

O texto está muito grande, então vou parar aqui. Amanhã, mais tópicos: (1) o poder das redes digitais e o ativismo de sofá (que eu acho válido); (2) a importância de se falar com quem não concorda com isso tudo (ou os malefícios de pregar para convertidos); (3) o dilema de manter o pacifismo quando tornamos vítimas da violência gratuita; (4) a condição financeira não anula protestos sociais. Se quiserem sugerir algum tópico, comentários ou Twitter: @stripolias.

E se junte aos milhares no Quinto Grande Ato Contra o Aumento das Passagens agendado para segunda-feira, 17 de junho, às 17 horas, no Largo da Batata (próximo ao metrô Faria Lima). Estarei lá.


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Eu, jornalista de tecnologia, 26 anos, pego um ônibus, dois metrôs e um trem para chegar ao trabalho. Para voltar, tudo isso, em ordem inversa. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Sem caminhões na Marginal, sem gasolina nos postos

A gestão Kassab mostrou mais uma vez dar preferência ao transporte público individual em detrimento do desenvolvimento de soluções mais complexas e inteligentes para o difícil problema de mobilidade urbana na capital paulista. Nesta segunda-feira, 5, os caminhões foram proibidos de circular na Marginal Tietê nos dias úteis entre as 5h e 9h, e das 17h às 22h. Aos sábados, a proibição acontece apenas no período da manhã, das 10h às 14h.

A intenção é aumentar o fluxo de carros e a fluidez do trânsito. O problema começou quando os caminhoneiros decidiram interromper a entrega de combustíveis a cerca de 2 mil postos de abastecimento na cidade, em protesto ás nove horas de impedimento.

Foto: Jorge Araújo/Folhapress

A prova de que a medida municipal não teve o objetivo traçado foram os 159 km de congestionamento às 11h desta terça, 6, recorde da cidade no ano, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Em meio às reclamações das vias paralisadas, algumas queixas de motoristas que já sentiam o aumento das filas dos postos de gasolina ou notavam as bombas de etanol, gasolina e álcool secas em alguns estabelecimentos.

Não consigo entender qual a lógica da gestão paulistana ao proibir caminhões na marginal. Teoricamente, veículos pesados atrapalham muito mais o trânsito em vias estreitas e de baixa velocidade, em bairros, não em vias expressas com mais de três faixas. Pois caminhões têm velocidade reduzida, dificultam ultrapassagens, estacionam em lugares movimentados para abastecer lojistas, entregando ou recebendo mercadorias. Claro, não podemos exterminá-los, é o trabalho de seus condutores é necessário à cidade como um todo. Caminhão na Marginal não atrapalha... faz parte do [da falta de] planejamento urbano da cidade, já que tanto a Tietê como a Pinheiros são estratégicas para chegar a qualquer região da cidade.

O carro, cada vez menos utilizado para caronas e transporte de famílias, tornou-se veículos de um motorista em locomoção ao trabalho - especialmente nos horários de restrição. O espaço é ocupado apenas por um corpo à frente do volante.

Em 2009, a mesma gestão proibiu a circulação de ônibus fretados em 70 metros quadrados da cidade. A Zona Máxima de Restrição à Circulação de Fretados (ZMRF) engloba áreas carentes de transporte público de massa suficientes como abundância de linhas de trens e metrô, entre elas, a região da Berrini, Moema, Morumbi, entre outras. A justificativa, novamente, foi melhorar a fluidez do trânsito com menos ônibus parados para desembarcar ou embarcar passageiros.

Qual a lógica de retirar das ruas pessoas que prestam serviço a toda uma sociedade, que encaram jornadas excessivas em prol de um salário muitas vezes insuficiente? Bem sabemos os prazos malucos que fornecedores exigem, obrigando os caminhoneiros a dirigirem por horas sem paradas para descanso, muitas vezes impactados pelo sono e estimulantes capazes de prejudicar, inclusive, sua capacidade de responder a estímulos necessários para uma direção completamente segura?

Desta vez, com a pressão [muito bem pensada, aliás] da categoria, a prefeitura tem um grande abacaxi nas mãos. Como resolver?

Pena mesmo que os usuários de fretados não conseguiram encontrar um meio de protesto de impacto semelhante. Lotar vagões, em especial da linha 4-amarela do metrô e da linha esmeralda da CPTM, não traz eco suficiente para engravatados no conforto de seus sedãs lacrados e climatizados com ar condicionado. Infelizmente.

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Opinião de usuária cotidiana de metrô, ônibus, trem e também motorista.
Ou seja - me espremo nos vagões e arranco meus cabelos em frente ao volante.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Sinais vazios

Com a inauguração da fase dois da linha amarela do metrô de São Paulo, a rede se expandiu em mais 9 quilômetros. Estima-se que 75 mil pessoas a utilizam todos os dias, e elogios são frequentes - seja sobre o conforto dos trens, fabricados na Coreia do Sul, e sobre o alcance da via, do Butantã até o Centro.

A Linha registrou uma falha operacional da manhã desta segunda-feira, 3, que deixou a mesma inoperante das 4h40 às 8h30 da manhã. Muita gente ficou na mão. À noite, quando a linha voltou a funcionar, fui uma desses milhares de passageiros e fiz #aloca do celular com câmera para registrar uma falha nas entrelinhas, ou melhor, na linha mesmo. Que me deixa incomodada.

A primeira estação da linha amarela foi inaugurada em maio do ano passado. É tudo muito novo, de última geração. Não há como negar - as estações são belíssimas e os trens muito confortáveis, amplos, com ar condicionado, baixo ruído, rápido. E o trajeto ligado por baixo da terra, do Butantã até a Luz, é feito em menos de 15 minutos... muito eficiente.

Mas a sinalização...

No começo do ano passado, a sinalização das estações das linhas azul, verde e vermelha está sendo adaptada para o padrão internacional. Isso significa que as mensagens que ajudam no fluxo de passageiros são padronizadas assim:


Todas as fotos são da estação Santana, da linha azul

Agora, quando eu ando pelas estações da linha amarela... todas novinhas... foram inauguradas quando o metrô já trabalhava na sinalização internacional... não entendo por que raios tudo está assim:

!!!!!!!!!!!!!!!!!

Cadê os ícones? Cadê as palavrinhas em inglês? Cadê as instruções didáticas pra todo mundo se orientar?

Alguém duvida que eles vão gastar mais uma grana pra alterar tuuuuuuuuudo isso??? Por que já não fizeram do jeito que tinha que ser feito?????

Ê, Braziu.

E antes de acabar, só dividir uma imagem que eu vejo sempre que chego em Santana.


Que informações, meu????



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Curiosidade 1: Levei um tombo na escada rolante 
porque a mesma parou do nada. Desci rolando até um cara me parar.
Curiosidade 2: Tem sinalização errada na Estação Butantã - flecha
indica para descer na escada para embarcar sentido Luz,
mas a escada na verdade está subindo.
Curiosidade 3: Esta é a postagem de número 100 do SP em Pauta! Eeee!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Reflexões sobre um furto

Eu, que sempre me orgulhava em dizer que nunca havia sofrido tentativa alguma de violência urbana, sucumbi ao centro de São Paulo. Fui furtada.

Naqueles dias em que você já está de mau humor, naqueles dias que você só quer chegar em casa, deitar num quarto escuro, ficar sozinha, talvez ler um livro. Naquele dia em que a dor de cabeça parece ricochetear na parte interna de seu crânio, prestes a encontrar uma rachadura para explodi-lo por inteiro.

No empurra-empurra e espreme-espreme capaz de desafiar o físico que afirmou que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Antes ou depois da catraca que conta sistematicamente cada pessoa que pega o transporte público da cidade. Uma a uma, até chegar aos milhões.

Número de celular recuperado. Número dos contatos montados novamente aos poucos. Antes apenas número daqueles que se equilibram no ônibus lotado, carregando bolsa, lendo livro e se segurando, tudo ao mesmo tempo... Agora sou apenas número daqueles que tiveram o celular furtado.

Como aquele que me emprestou seu aparelho para constatar que realmente já estava feito, e depois consolou-me com um olhar cansado e piedoso vindo de seus cansados olhos azuis. Quase opacos de tanta poeira e poluição. Puxou uma conversa que contaminou os outros viajantes. Todos tinham uma história "até pior" nas ruas de São Paulo. "Menina, fica tranquila. Você é jovem, linda, tem que ficar feliz porque não aconteceu nada pior"*.

Ironicamente, eu que estudo comunicação digital, começo a refletir todo o pedaço de vida que eu carregava num aparelho. Pra um filho da puta abrir meu bolso e arrancá-lo como se amputasse uma parte de meu registro de memórias.


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*É terrível pensar que "pelo menos estou bem",
pois estamos realmente tão "acostumados" com a realidade urbana desumana
que uma ameaça de uma violência física não concretizada é aliviante.
A única vez que havia acontecido alguma coisa parecida comigo,
havia sido no metrô de Barcelona. Rasgaram minha bolsa em
uma tentativa de furto. Mas não conseguiram levar nada.
(mereço ir ao classe média sofre, eu sei)

Foi no 178L, Lauzane Paulista, talvez na altura do Cemitério da Consolação 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

São Paulo congela

O som das buzinas entre os carros enfileirados não ecoava mais na avenida. Não se via mais o motoqueiro que antes ziguezagueava entre as faixas brancas interrompidas desenhadas no asfalto. O trepidar incessante das ruas irregulares, que antes balançavam os corpos presos ao banco por uma tira negra de poliéster transversal, era inexistente. E dentro de cada um dos carros, os rádios que antes batucavam tantos ritmos e cantavam amores e desamores, bradavam quase que em coro: São Paulo parou.

Os motoristas congelados não conseguiam mudar a estação sintonizada no rádio do carro. Pouco importava – cada uma trazia, a seu modo, a mesma notícia: devido ao alto e descontrolado número de carros, São Paulo não tinha mais espaço pra deslocamentos.

A rádio da moda trouxe o autor do hit do momento para comentar – só tinha chegado ali graças ao helicóptero, adquirido com os rendimentos da última "turnê". Já a famosa pelas notícias de última hora provocava em tom irônico a ausência do secretário dos transportes, que deveria ir a público se manifestar diante da população. Mas ele não havia sido localizado ainda. Estaria preso no trânsito?

A ecológica falava ao telefone com um especialista da USP, que calculava os milhões de metros cúbicos de dióxido de carbono que seriam expelidos na atmosfera até os tanques dos carros parados secarem, poluindo ainda mais o nosso ar, diminuindo ainda mais a pífia qualidade de vida que a gente leva. E aquela cujo enfoque era economia trouxe analistas que detalhavam o impacto para a produção de petróleo brasileira, evidenciando a porcentagem da cidade no consumo da produção nacional.

Tanta explicação simultânea para aquilo que um dia já havíamos tido a previsão nas conversas de botequim, no café antes do expediente, nos quinze minutinhos antes de sair do trabalho, no papo de elevador. Alguns anos antes, naquele mesmo mês de março, alguns já tinham alarmado que a capital ultrapassara os impressionantes 7 milhões de veículos emplacados*. Estacionamentos verticais davam conta de comportar tantas cápsulas sobre rodas, mas o colapso era inevitável se todos saíssem às ruas em um mesmo momento. E isso, finalmente, aconteceu.

Dentro de cada uma destas cápsulas, os motoristas estavam paralisados. Não eram capazes de virar a chave. Não eram capazes de descer do carro. Ficaram ali, estagnados, fechados com o ar condicionado ligado (os sortudos) ou ao lado das janelas abertas sem vento (os modestos). Enclausurados dentro de seu individualismo, face a face apenas com seus pensamentos. Talvez em choque devido ao pânico da impotência, da imobilidade, da resignação. Pela primeira vez, eram obrigados a pensar na vida que levavam todos os dias ao trabalho, ao lado, no banco de passageiro.

Nos prédios, luzes acesas esperavam os trabalhadores que não iriam mais voltar. Nas ruas, olhos aflitos passeavam entre os pontos luminosos procurando rostos conhecidos no meio da multidão de latas camufladas por plásticos insulfim.

Naquela noite, ninguém dormiu.

Até que, ao nascer do sol, o primeiro motorista da fila de carros percebeu que tinha que assinar o documento da sensatez. Debaixo da pele da cidade é que devia correr o sangue paulistano.


*O texto é uma crônica, mas este dado assustador é verdadeiro

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Enquanto uma amiga querida narrava seu sonho (ou pesadelo?), construí
este texto mentalmente. Ela tem a incrível capacidade criativa
de despertar nos outros o melhor de si. E ela foi a responsável por
fluir meu espaço, meu texto, meus sentimentos, bloqueados pelas amarguras 
que infelizmente têm sido cotidianas. 
Mas quem disse que é ficção? Quem disse que esse congelamento não pode acontecer?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Feliz Natal #fail

O crescer do consumo da classe média, o aumento do crédito e a alta do dólar que impulsionou as companhias de turismo forçarem a queda dos preços de viagens nacionais acabaram por aumentar o acesso às viagens de avião. Partindo de São Paulo, é possível encontrar pacotes CVC para praias nordestinas a partir de 6 x R$ 66 (é sério!). Resultado: nossos aeroportos, que já não davam conta da demanda por voos, ficaram ainda mais inflados. E, quando os funcionários de companhias aéreas ameaçaram entrar em greve em plena antevéspera de Natal, muitos tremeram. Seria o fiasco tupiniquim, notícia internacional que com certeza repercutiria em terras estrangeiras e contribuiria para aquela imagem do País que todo mundo quer afastar.

Mas verdade seja dita... o popular, mais acessível, mais barato, mais democrático e mais prático ainda é viajar de ônibus. Em São Paulo, pelo menos, as duas principais rodoviárias ficam lotadas às sextas-feiras, quando muitos dos trabalhadores vão curtir a folga de final de semana em casa. Em vésperas de feriados, então, aumenta. Em vésperas de feriados emendados, mais ainda. Em véspera de feriado emendado de Natal, veja só...


Que delícia, hein?

Uma definição: Caos. E eu estava aí no meio.

As rodovias de São Paulo estão entre as mais caras do mundo (pedágios, pedágios). Em uma viagem em um veículo de passio comum, na Rodovia Castello Branco, para andar apenas 120 km da capital sentido interior, gasta-se R$ 15,65. Na Rodovia dos Bandeirantes, são R$ 18,30. Barato não é. Este dinheiro, que não é pouco, deve ser aplicado na infraestrutura das pistas e de todo o transporte terrestre da região. E as rodoviárias fazem parte disso - e olha que nem estou mencionando a quantidade de impostos que pagamos, as taxas das operadoras rodoviárias, entre outras variáveis.

O aperto (literalmente) pelo qual passei é apenas um reflexo de falta de preparo para receber tanta gente nestes deslocamentos. Falta espaço, falta plataforma, faltam ônibus, faltam cadeiras, faltam até geladeiras para acondicionar bebidas a serem vendidas - não encontramos em nenhum dos quiosques água, suco, chá ou refrigerante gelados. O estoque era reposto com tanta rapidez devido ao alto número de pessoas que não dava tempo das bebidas esfriarem - estava quase 20°C. Os preços, também um assalto abusivos - R$ 3 a garrafa de água em todos eles, que são administrados pela mesma companhia, a GRSA.

Apenas na companhia a qual viajei, a Andorinha, havia dois ônibus de dez em dez minutos para meu destino, pois carros extras foram adicionados além dos horários habituais. O impossível era acreditar que, em apenas duas plataformas, era plausível embarcar mais de 40 pessoas nestas linhas a fim de não atrasar os próximos horários. A consequência foi simples - quando cheguei, às 22h, estava saindo da plataforma o ônibus das 20h50. O meu, marcado para as 23h56, deixou a Barra Funda às 2h da madrugada, pontualmente. Como ninguém previu isso?

Famílias inteiras apertadas, com crianças de colo, bagagens gigantescas empilhadas sobre as cabeças, aquele empurra-empurra para chegar à plataforma e não perder o ônibus, o cuidado com os batedores de carteira (estes não têm espírito natalino). Crianças chorando, crianças dormindo, pais se lamentando, mulheres perdendo a paciência, casais brigando. Inúmeras pessoas sentando no chão, cansadas de esperar. *Em uma rápida epifania, lembrei daquelas provas de resistência em reality shows, como as pessoas conseguem ficar mais de 1h de pé sem mudar de posição, galere?

Enquanto isso, todos os noticiários focaram a condição dos aeroportos. Greve? Overbooking? Neve no hemisfério norte que cancelavam voos? Atrasos? Superlotação de salas de embarque com ar-condicionado?

E Rodoviária da Barra Funda, assim, que nem é a principal da cidade - serve apenas alguns municípios do interior do Estado. Imagine a do Tietê, com abrangência internaiconal, como estava...

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E foi uma aventura atravessar toda essa gente pra chegar na plataforma.
Vi gente desistindo. Uma loucura. Lou-cu-ra.

domingo, 16 de maio de 2010

1744 - Lauzane Paulista

Ela escolheu a poltrona do corredor propositalmente. Afinal, qualquer que fosse a pessoa com intenção de sentar-se ao seu lado teria por obrigação iniciar uma conversa com "licença, moça". E foi assim que o rapaz gordinho passou por ela com uma pasta A3 nas mãos.




"Você desenha?"
"Sim! Quer ver?"
"Quer mostrar?"


O sorriso, aquele fundamental na conquista, apareceu pela primeira vez. Ele, tímido, aproveitou a oportunidade para desfrutar do único momento até então em que sua timidez não era empecilho para conversar com uma menina bonita. Enquanto ela perdia-se entre traços de giz de cera e lápis de cor que lindo!, ele perdia seus olhos nos vai-e-vém dos cachinhos pendurados no alto de sua cabeça. Finalmente encontrara um alguém de saias, atrevida, que por hábito tomava o controle dos assuntos do coração.

Eu desenhava, quando era criança... mas todos os professores falavam que era bobagem, então eu parei. Mas aí eu voltei. E ele também. Tipo assim, é uma liberdade. Eu vou trabalhar com isso. Tipo, cara, eu também... !!!! Embora ela preferisse traços urbanos, próximos ao grafite, ele preferia a delicadeza da subjetividade ao observar situações cotidianas. Fugia das caricaturas, mas se fizesse um desenho dela, seus olhos verdes seriam tão grandes que nem caberiam no papel.

E então nem perceberam que o mp3 parou de tocar. Nem viram o ponto que passou, onde teriam que descer. Riram, trocaram endereços de msn e prometeram se adicionar no orkut. Mal saberiam que, em um mês, mudariam ali mesmo na página virtual seus status em "relacionamento".

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Parte verdade, parte fruto de minha imaginação jornalística.
Mas quem se importa?
Vale o que acontece no meu mundo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Vapor barato, violência gratuita

Minutos antes, conversava com uma amiga sobre como eu reclamava com pessoas folgadas no metrô. Empurrou? Falo mesmo: "não empurra!". Depois da baldeação, mudei de ideia. Não solto mais faíscas de estresse provocado pela caótica São Paulo.

Na última segunda-feira presenciei como o vapor barato se transforma em violência gratuita. Em mais um dia de "devido à falha na altura da estação [desta vez, Sé] da linha azul, os trens estão circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada", na conexão com a linha verde, aquele mar de gente.

Mesmo atrasada, pego o trem no sentido contrário para entrar no vagão em paz e sem empurrões. Quando o trem chega, de novo, na estação Paraíso, foi aquele empurra-empurra. Até que dois caras começaram a se olhar torto e bater boca.

De nada adiantou tanto grito de deboche vindo dos outros passageiros. De nada adiantou a multidão espremida ali, menosprezando as atitudes.

Vai se foder.
Vai você!
Você vai apanhar!
Ah é, seu cuzão?

[As portas se abrem e uma clareira também, enquanto uns descem, outros gritam, os dois caem.]

Lamentáveis socos, pontapés, marmanjos rolando no chão e duas almas bondosas se machucando para separar. Eram quase 9 horas da manhã na estação Brigadeiro.

Quando percebi, chorava sozinha nas escadas rolantes em direção à Paulista. Nem o caos, nem a multidão, nem o empurra-empurra, nem o estresse, nem o calor abafado, nem o fedor justificam esse tipo de explosão de raiva. Paulistanos que têm a vida muito triste.

Não solto mais faíscas. Elas incendeiam rapidamente. A partir desse dia, quem vier com tanta truculência urbana, ganha um humilde "desculpe-me, não tinha a intenção". Pode ser bobagem, mas, no momento, é minha última esperança.


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Demorei um dia para digerir o que vi. E ainda estou impressionada.
Vapor barato porque a primeira coisa que me veio à cabeça é
"sim, eu estou tão cansado" e "tão à flor da pele".
E pela efemeridade do vapor, que num instante se desfaz.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Caos subterrâneo

Um problema na região da estação Liberdade causou lentidão dos trens da linha azul e maior tempo de parada nas estações. Foi assim que a assessoria de imprensa do metrô de São Paulo explicou a superlotação nas estações na manhã desta quinta-feira.

A falha aconteceu por volta das 7h e, ainda segundo a assessoria, antes das 7h10 já estava normalizada. A falha foi consertada, o problema subterrâneo, não.

Imaginem que um atraso de dez minutos afeta toda a linha - quando um trem para, o outro não pode seguir. O metrô possui trens a cada 3 minutos em horário de pico - logo, foram 3 trens. Em dias normais, pessoas aguardam na plataforma porque trens estão lotados, não conseguem embarcar. O metrô já é cheio. Multiplicar toda essa gente por três e adicionar vagarosidade em túneis escuros e sem ventilação é loucura.

Como eu publiquei no meu twitter, vi gente chorando, desmaiando, sendo pisoteada. Um casal de cegos não conseguiu descer na estação Luz - por causa da integração com trens da CPTM, teve catracas bloqueadas para impedir as pessoas de chegarem à plataforma do metrô, que não comportava mais ninguém.

Não consegui avisar minha chefe, as linhas de celular estavam congestionadas. A moça ao meu lado recebia mensagens da amiga dizendo que o chefe estava impaciente pelo seu atraso. Pobre coitada, não conseguiu responder de três celulares emprestados, porque o dela estava sem crédito e a mensagem "rede ocupada" insistia em aparecer na minitela mobile. Por ironia, ela era operadora de telemarketing... será que vai ter o salário do mês reduzido por causa disso?

A linha vermelha e verde foram afetadas - todas as linhas atualmente se interligam na região central, próxima de onde houve a falha. Faltam linhas, falta vazão a milhões de pessoas que atravessam a cidade para trabalhar: consequência do crescimento desornado da metrópole.

Para completar, um recipiente deixado na ponte do Limão, na zona norte da cidade, despertou o alerta dos bombeiros pela possibilidade de bomba (quem é que explodiria a ponte do Limão, meu Deus???).

Vagaroso.

Ok, entendo que uma falha acontece, acidentes acontecem, não há horário para isso. Mas... acho que é um excelente motivo para repensarmos na falta de alternativas de transporte público em SP. Já é hora. Reflitam bastante sobre isso e sobre outros problemas da cidade, muito mesmo, e façam alguma coisa relevante ano que vem, por gentileza.

sábado, 11 de julho de 2009

Túnel do tempo


Túnel do tempo?
Eu o vi, eu o vi!, quando a retroescavadeira se afastou!
“Ah, dona Diana, sinto muito, mas a retroescavadeira vai ter que voltar...”
Apaga-se a luz.
Só fico então com as linhas enroladas, escuras, enrolando-se no túnel.
“Só mais um pouco e a retroescavadeira sai, dona Diana, só mais um pouco.”
E sai.
E então, impulsionada por força que não sei explicar,
sinto o nanquim pegar em minha mão, e, juntos, em gestuais concêntricos,
vamos girando pelo túnel, girando, girando, até atingirmos a luz no fim do túnel...


Descobri as aquarelas e os textos de Diana Dorothéa Danon por acaso, procurando os horários do transporte público em São Paulo no site do metrô. Ela expressa o andamento das obras de expansão do sistema de transporte por meio de retratos sensíveis, capazes de congelar a efemeridade das cenas das obras urbanas. Um tesouro de sensibilidade.

Não é segredo que sou fã do metrô de São Paulo e quero muito o fim dessas obras. Quero novas linhas, novos projetos. Acho que a solução para o trânsito dessa cidade é furar mesmo todo seu subsolo e construir linhas intermináveis, para todos os cantos e direções. Simultaneamente, claro, a uma conscientização das pessoas que é necessário deixar o carro em casa - principalmente aos dias úteis.

Eu, que espero ansiosamente o fim do ano para comprar meu carro, sobrevivi a um feriado e a uma sexta-feira passeando de metrô e ônibus, fui até a Osasco. Sei que é preciso andar de transporte público para o trânsito fluir. E que, se as pessoas não pensarem assim, quando eu comprar finalmente o meu possante, não haverá espaço para ele nas ruas. O paulistano deve entender que o automóvel nem sempre é a melhor opção - e me preocupo se eu vou continuar pensando assim quando estiver ao volante.

Conheça o trabalho de Diana aqui.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A encantadora leitora dos papéis em branco

Ela tinha a habilidade de guiar-se entre as palavras invisíveis daquela folha de papel em branco. Apertada na poltrona desconfortável do ônibus lotado, acompanhava cada linha com os dedos e, a cada surpresa, sorria.

Ao apagar a luz, o motorista nem percebeu a leitura daquela moça. "É que atrapalha, assim de noite, uma luz aqui dentro com as luzes lá de fora". Não é que as luzes lá de fora não iluminavam os parágrafos misteriosos que ela desvendava a cada sacolejo?

Não dava para ver a atenção de seus olhos. Enquanto todos reparavam no seu estranho hábito de usar óculos escuros quando já era noite, eu não desgrudava do mistério que aquelas folhas em branco traziam, impregnado na sua trama.

Observei muito a encantadora leitora dos papéis em branco, que sequer notou minha presença. Para ela, não havia mais ninguém - só o desenrolar da história envolvente que ela lia.

Quando deu sinal para descer, esperou sentada a chegada no ponto. Desembarcou pela porta da frente. Ela não podia ver os degraus, mas enxergava perfeitamente todo o enredo que os furinhos em braile lhe revelavam na ponta dos dedos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Presa no Paraíso

Sempre fui fã do Metrô de São Paulo. Apesar da superlotação de passageiros nos horários de pico (principalmente na , Luz e Paraíso), acredito que o metrô é a solução para o trânsito caótico da cidade.

É limpo, é seguro, é rápido, é barato. Por isso escolhi o Metrô para voltar da festa de um amigo, nos Jardins, na terça-feira (12). Já era quarta quando embarquei na estação Consolação, às 0h15min, com uma amiga. Ficamos tranquilas porque chegaríamos em Santana sãs e salvas - afinal, para duas mocinhas do interior, o desconforto de andar por SP de madrugada é inevitável.


Metrô 5
Estação Sé fora do horário de pico: poucos passageiros na plataforma.

Chegamos na estação Paraíso às 0h30min. Durante a semana, faço esse percurso em exatos 3 minutos... mas tudo bem, afinal, neste horário a quantidade de trens em circulação é menor. Pois que esperamos mais uns quinze minutos quando anunciaram...

"Atenção... não existem mais carros indo para a estação Tucuruvi. Atenção, NÃO existem mais carros indo para a estação Tucuruvi."

Pânico. Procuro um funcionário, que me diz "quando você embarca depois da meia noite, não dá para garantir". Surtei. Como assim ninguém fala nada na hora que você embarca? Sempre achei que, uma vez lá dentro, era garantia que chegaríamos no destino. E achei a justificativa de extremo desrespeito.

Resultado: peguei o metrô de volta pra estação Consolação... inconsolável. E, de lá, peguei o último ônibus até a minha casa. Frustrada, R$ 2,55 mais pobre e o pior: decepcionada com o Metrô, que até então de mim ganhava tantos elogios rasgados.