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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

As dores e delícias das chuvas de janeiro

Um dia a gente resolve que vai fazer uma coisa e faz. Um dia a gente acorda e, mentalmente, colocamos a nós mesmos - isso tem que ser realizado porque vai ser melhor assim. Porque eu quero, porque tenho vontade ou porque é preciso. De repente, quando decidimos que algo será feito, esta coisa acontece.

Nem sempre as coisas funcionam de maneira tão simplista. De repente a gente percebe que, mesmo querendo e agindo, não é tão fácil.  E, mesmo com força de vontade para passar por cima dos obstáculos que te desviam da rota, aparece alguma coisa que você não consegue entender sozinho. Não consegue ultrapassar sozinho. E aquilo te domina, te modifica, muda tudo o que você tinha planejado. E sua vida, que é sua, não é do seu total controle como você pensava que fosse. E a mudança, que parecia difícil, talvez nem seja tão possível.

Com São Paulo foi mais ou menos assim. São 456 anos, 11 meses e 10 dias de vida, de trânsito, de mudança, de progresso. A cidade se adaptou, foi adaptada, criou veias, criou vias, criou valetas, criou buracos, criou poças. Tornou-se universo próprio, sem controle e descontrolada. Não se sustenta mais sozinha.

Janeiro é o mês das dores e delícias paulistanas. Pelas manhãs, o trânsito, que normalmente é caótico, revela-se dócil e fluido. O clima, ameno. Uma brisa quase que imperceptível acaricia os rostos amassados da fronha de quem acorda antes das sete. Ao meio-dia, o ar abafado do calor de verão - esquentou. Às seis, o pesadelo - olhar para cima é ver o céu pintado de branco e preto, iluminado por clarões que anunciam a chegada de quem traz, além de si, a ameaça de colocar à prova todos os problemas estruturais paulistanos. A chuva.

A mesma chuva que em poucos segundos refresca o calor insuportável de horas, nos mesmos poucos  segundos destrói vidas.

Choveu, alagou, parou, desistiu.

E aí nos damos conta de todos os problemas e situações que a cidade simplesmente não se deu conta por tanto tempo e, agora, é tarde demais. Quando alguém acorda e de repente decide que vai fazer, que vai resolver, que pode mudar, e talvez até tenha poder governamental o suficiente para tomar decisões, depara-se com o empecilho - sozinho, não dá. São Paulo, sozinha, não dá.


A foto é da Folha de SP


É o excesso de transporte privado.
É a falta de transporte público.
É a falta de qualidade do transporte público.
É a falta de planejamento das ruas.
É a falta de galerias.
É o excesso do lixo.
É a falta de tratamento do lixo.
É o excesso de gente lá fora.
É o excesso de asfalto no chão.
É a falta de planejamento ao modificar o curso do rio.
É a falta das galerias pluviais.
É o gigantismo da dimensão da cidade.
É a falta de paciência do motorista da frente.
É o excesso de egoísmo do motorista de trás.
É a falta de educação de tantos ao nosso redor.
É a falta de moradias adequadas.
É a falta de saneamento básico.
É excesso de terra no barraco.
É a falta de consolo daquele que fica.
É o excesso de dor daquele que vai.

São Paulo. Não adianta mais a boa vontade de alguém para resolver alguma coisa. Mesmo com boa vontade, persistência, planejamento... É necessário tanta coisa... De tanta gente...


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Não adianta, todo verão é a mesma coisa. E nada é feito. Até se veem tentativas,
mas sabemos que não são suficientes. Não sei se é pessimista demais
para uma postagem de abertura do ano... Mas há quanto temos vemos as mesmas
notícias, nos mesmos jornais? Poder público municipal, estadual e federal; sociedade;
terceiro setor. É esta mobilização que São Paulo precisa, talvez?

3 comentários:

anonymo76 disse...

Sempre achei que em SP a gente esta entre milhões mas está sempre sozinho. é clichê mas é verdade.
Dependemos das pessoas o tempo todo, no trânsito, no metrô. Vivemos uma dependência do outro que é normal em qualquer organização social. Mas no final de outro dia difícil a gente está sozinho, dorme e acorda pra enfrentar a cidade vazia de céu preto e branco outra vez, tenta vencer os dilúvios que o destino coloca no seu caminho.
Mas eu acredito nessa cidade, a solução não parece ser fácil, mas talvez seja óbvia.

stripolias disse...

faz sentido.

Eduardo disse...

São Paulo é assim...tem beleza e tristeza se emaranhando no meio da poluição e correria dessa Megalópole.
Legal sua observação,

Bjs,

Duh