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sexta-feira, 14 de junho de 2013

São Paulo já parou

Sempre fui simpática a manifestações, preguiçosa demais para participar, me envolvi em poucas quando fiz o Ensino Médio na ETESP e em uma na universidade, na Unesp. Desta vez, sem preguiça.

Não, não fui para a rua [ainda]. Das primeiras vezes, não estava em São Paulo. Na última quinta-feira, estava trabalhando no Transamérica Expo Center, extremo sul de São Paulo, em um dia com greve de transporte público. Não consegui chegar. Não deixei, contudo de participar - lendo, conversando com as pessoas, me informando, disseminando informações online a apoiando colegas que lá estavam, dando a cara para bater. O intuito deste texto é me posicionar publicamente sobre o que estamos vivenciando e responder questões que surgem aos opositores de Facebook.

1. Entenda os R$ 0,20.
O sistema de transporte público em São Paulo é operado da seguinte forma: a prefeitura dá a concessão dos ônibus a empresas privadas, por meio de licitações. Cada uma delas é responsável por uma zona da cidade.  A empresa administra, além do valor das passagens, um subsídio recebido da administração pública.

O objetivo de qualquer empresa privada é o lucro. Portanto, explorar o lucro em cima de um direito fundamental significa cobrar mais da prefeitura (o subsídio aumenta) e cobrar mais das passagens (a tarifa aumenta). Logo, a cada reajuste, não se engane - estamos pagando duas vezes, afinal, o orçamento público vem de nossos impostos.

O Movimento Passe Livre (MPL) critica fundamentalmente esse modelo de negócio. Não podemos servir a interesses privados e lucrativos quando o que está em jogo é uma atividade cuja concepção em si deveria ser direito de todos. Ir e vir.

2. Transporte de graça
Seria lindo transporte de graça, como prega o MPL. Não, não é utopia- essa política é praticada totalmente em Agudos (interior de São Paulo) e parcialmente em países como a Holanda (onde estudantes da União Europeia, e não só holandeses, trafegam em trens, inclusive intermunicipais, gratuitamente), por exemplo.

Obviamente, estas políticas não foram implantadas do dia para a noite. É inviável pensar que, de repente, 19 milhões de moradores da região metropolitana de São Paulo iriam andar de metrô e ônibus de graça. Porém, é preciso repensar o modelo acima para ao menos termos as tarifas reduzidas substancialmente ao mesmo tempo em que melhoramos a qualidade da mobilidade nessa cidade. Não é utopia o que prega o MPL, existem exemplos que, se não devem ser espelhos para serem copiados integralmente, podem ser usados de inspiração para motivarem uma melhora.

3. Mobilidade em São Paulo?
A qualidade do transporte público de São Paulo não é tão ruim quando analisados os veículos em si. Temos metrô e trens modernos com ar condicionado. Temos ônibus relativamente novos e bem conservados - quando comparados a países como Argentina e Uruguai, onde estive recentemente. Lá, os veículos são velhos, muito velhos. Barulhentos. Mal conservados.

O problema é que não há mobilidade em São Paulo. A falta de qualidade no transporte público é porque ele é caro e ineficiente. A malha ferroviária não cobre regiões importantes da cidade, as conexões entre linhas é tumultuada. Não quero dar números para balizar esses argumentos - basta olhar as fotos abaixo.

Metrô:



CPTM:




Eu chamo carinhosamente de Carnametrô e CPTM Folia, respectivamente.

Em vez de se espremer assim, muitos optam por dirigir seus carros. Afinal, o crédito para se comprar um automóvel é acessível. Carros zero são cada vez mais baratos. O carro faz parte do sonho de consumo da cultura nacional. O problema é que não cabe tanto carro na rua. Batemos recordes consecutivos de congestionamentos. São Paulo já é parada.

Quando o trânsito para, os ônibus também não andam. Se você cria corredores, você trava o trânsito. Sem corredores, trava todo mundo. Dentro do busão, tudo extremamente lotado. Ou seja: você paga caro para não se mover. Não é cheio, é lotado, nas mesmas (ou até piores) condições acima.

O transporte público de São Paulo é ruim porque ele não faz o que deve fazer com eficiência: deslocar pessoas de um ponto a outro na cidade, em tempo hábil.

___________________________uma pausa, rapidão.
Como melhorar essa situação? Vem cá, Haddad, senta aqui, vamos discutir as tarifas do busão. Vem cá, Alckmin, por que raios você não dá uma acelerada nessas linhas novas que estão travando as ruas pros carros, e ainda não prontas para transportar gente debaixo da terra? Vamos tomar um café ali na Paulista, pra gente conversar.

Obviamente, isso não acontece. É delirante. E aí surge a necessidade de ir às ruas. Chamar a atenção para toda essa situação. Tudo dito até aqui é a essência do primeiro movimento. Mas já estamos no quinto ato! Vamos continuar.

4. Quero chegar em casa logo! Esse bando de baderneiros!
Quando você vai para o centro, para uma área economicamente ativada cidade, você afeta as pessoas ao redor. Na teoria, elas tenderiam a querer saber o porquê da manifestação tão inflamada. Infelizmente, aprisionados pela estafa de um dia de trabalho e com argumentos dados pela cobertura midiática, o transtorno individual se sobressai em meio ao esforço coletivo.

Ora, se o transporte (público e trânsito particular) melhorasse, as pessoas chegariam em casa rapidamente e com conforto.

5. Ok, entendi e apoio! Mas vão protestar na prefeitura, na sede do governo.
Concordo. Temos que fazer barulho para as autoridades, pressioná-las. Acontece que, àquela ocasião, elas estavam em Paris, defendendo a candidatura paulistana para sede de uma feira de comércio internacional, que traria gasto para a cidade com a visita de executivos do mundo todo.

Ademais, queremos você conosco. Queremos que vocês se misturem a nós. Aliás, na última quinta-feira, 13, havia um acordo com a Polícia Militar sobre não ocupar a Prefeitura ou o Estado. Isso foi respeitado, para evitar o confronto com o braço armado do estado. Você discordaria de alguém que aponta uma arma para você?

6. Mas para quê quebrar tudo?
Na estimativa da PM, havia 4 mil pessoas nas ruas. O estrago causado, algumas agências bancárias quebradas, algumas estações de metrô depredadas, foi de responsabilidade de uma minoria. Se as 4 mil pessoas realmente estivessem ali para quebrar tudo, certamente, obviamente, as leis da física nos fazem claro que o estrago seria MUITO MAIOR. Ninguém quer destruição de coisas particulares ou públicas. Afirmo seguramente que quem causou a depredação forma uma quantidade pífia frente a quem legitimamente protestava.

Agora, dois pontos polêmicos:
Pichações. Sou a favor de rastros nos muros com pichações políticas. Quando estive em Madri, Paris, Barcelona, Berlim, Londres, Buenos Aires e Montevidéu, vi os muros inflamados de diversas mensagens políticas. Não vejo de todo o mal - as pessoas olham, leem e refletem. Sei que há muitos que discordam comigo nesse ponto, e acho válido discordar, até porque muitos pichadores ultrapassam o limite da mensagem política e realmente depredam bens públicos. Mas as frases e mensagens são fotografadas e espalhadas pelo mundo. É uma maneira de fazer nossa voz falar mais alto e chegar mais longe.

Piquetes com fogo. Eles são feitos geralmente ao incendiar o lixo, para conter o avanço da tropa de choque da PM e da ROTA. Vou tratar da abordagem policial posteriormente. Para quem não sabe, são as forças de repressão e truculência máxima da Polícia Militar, que vão varrendo as ruas em cordões de isolamento com escudos e cassetetes, ao som de batucadas marciais. Na segunda "camada" de pessoas, a artilharia de bombas de gás. Essa estratégia é para desmantelar e dissipar manifestações. Calar a voz. Como contê-los? Como evitar essa ação violenta, que soa como - ok, até aqui vocês brincaram de protestar, agora já deu, não deixamos mais. VOLTEM! Resposta: com piquetes de lixo. Até onde vai meu discernimento, não acredito que queimar lixo é um ato de vandalismo. Destrói-se o que já foi descartado.

No geral, o que vejo é que existe sim vandalismo. Eles são, contudo, minoria, e usados para desmoralizar a causa e o protesto como ele é realmente realizado. E ao contrário do que se possa imaginar, não causam um prejuízo milionário equiparável à quantidade de perdas causadas pelo trânsito parado, pelas bombas explodindo, pelas vidas machucadas.

7. Por que não votam direito? Agora é tarde para reclamar.
Não, não é tarde. O exercício democrático não significa apenas apertar botões de dois em dois anos. Não interessa em quem você votou - é importante entendermos que não temos que seguir leis do governo porque o governo manda no povo. O governo serve o povo. Nós somos o patrão. Nós mandamos. Mesmo sem votar no Haddad e no Alckmin (e aqui eu atinjo diferentes e distantes perfis de paulistas e paulistanos, esta não é uma luta partidária contra PT ou contra PSDB), você tem direito de cobrar de AMBOS uma atuação justa e que eles atendam os seus interesses. ISSO é democracia, que implica também obrigações a você, eleitor.

8. A gota d'água
E aconteceu. O gigante acordou. Um monte de gente saiu às ruas primeiro por causa do transporte, mas de repente, outros cartazes foram erguidos. Corrupção, educação, pedindo qualquer coisa, menos um aumento de passagens de uma coisa que não funciona e deveria ser mais barata. A meu ver, as pessoas se deram conta desse poder e da necessidade de se reivindicar ao ver especialmente as imagens da truculência policial. A rede por si só deu conta de disseminá-las:

a. Polícia atira em poucos manifestantes que pediam "sem violência":




b. Polícia atira bomba de gás em apartamento onde moradores filmavam manifestação:
Link (não consegui integrar o vídeo)

c. Jornalista da Carta Capital é preso por portar VINAGRE:



 d. Polícia atira na imprensa:



e. Policial quebra vidro da própria viatura:


 d.  Imagens que falam por si mesmas:







Nesse momento, percebemos que o movimento perdeu o controle. O próprio MPL não possui tanta gente assim em sua base e, de repente, todo mundo que se manifestasse se tornou alvo de violência. As pessoas começaram a ser convocadas para protestar por diversas razões, unindo-se àquelas que perceberam que o aumento de R$ 0,20 e a inaptidão de negociar interesses públicos também esbarra a solução de diversos problemas estruturais os quais lemos, convivemos, engolimos cotidianamente. Isso tem uma explicação econômica, como foi abordado em excelentes textos, como este aqui, do Alexandre Versignassi, da Superinteressante. A CNN resumiu bem:

O Brasil está, atualmente, tendo a experiência de um colapso generalizado de sua infraestrutura. Há problemas com portos, aeroportos, transporte público, saúde e educação. O Brasil não é um país pobre e os impostos são extremamente altos. Brasileiros não veem razão para tanta infraestrutura ruim quando há tanta riqueza altamente taxada. Nas capitais estaduais, as pessoas gastam até quatro horas diárias no trânsito, seja em seus carros ou em transporte público lotado de péssima qualidade.

O governo brasileiro tomou medidas remediais para controlar a inflação ao cortar impostos e não percebeu ainda que o paradigma precisa mudar para uma abordagem focada em infraestrutura. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro está reproduzindo em menor escala o que a Argentina fez há alguns anos: evitar austeridade e prever o aumento das taxas de juros, o que está levando à inflação alta e crescimento baixo.

Além do problema de infraestrutura, há diversos escândalos de corrupção que permanecem sem julgamento, e os casos sendo julgados tendem a terminar com absolvição dos réus. O maior escândalo de corrupção na história brasileira finalmente terminou com a convicção dos culpados e agora o governo tenta reverter a decisão da justiça usando manobras por meio de inacreditáveis emendas constitucionais: a PEC 37, a qual anula o poder investigativo dos promotores do Ministério Público (equivalente brasileiro aos District Attorneys norte-americanos), delegando a responsabilidade de investigação totalmente à Polícia Federal. Além disso, outra proposta busca submeter as decisões da Suprema Corte ao Congresso - uma completa violação dos três poderes.

Esta são, de fato, as revoltas dos brasileiros.

É no mínimo curioso que um veículo de mídia norte-americano conservador em sua essência reflita e exponha diversos interesses que nasceram com nossa incapacidade de conseguir o que queremos. E enfrentar a violência policial, como não vemos desde a época da ditadura brasileira.

9. Sou cagão. Até apoio, mas tenho medo de me machucar. Ou preguiça.
Eu sinceramente sugiro que você vá observar. Chegue na concentração e observe a atmosfera. Olhe, de longe, os manifestantes. Presencie, sem filtros, quais os anseios e o meio de atuação de todo mundo que dá a cara para bater. Não precisa marchar - entendo e compartilho do medo depois de ver imagens de violência como vimos. Mas presencie e PASSE ADIANTE nossos motivos. Desde a raiz da motivação, até nosso principal mote agora: o direito de manifestar.

O texto está muito grande, então vou parar aqui. Amanhã, mais tópicos: (1) o poder das redes digitais e o ativismo de sofá (que eu acho válido); (2) a importância de se falar com quem não concorda com isso tudo (ou os malefícios de pregar para convertidos); (3) o dilema de manter o pacifismo quando tornamos vítimas da violência gratuita; (4) a condição financeira não anula protestos sociais. Se quiserem sugerir algum tópico, comentários ou Twitter: @stripolias.

E se junte aos milhares no Quinto Grande Ato Contra o Aumento das Passagens agendado para segunda-feira, 17 de junho, às 17 horas, no Largo da Batata (próximo ao metrô Faria Lima). Estarei lá.


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Eu, jornalista de tecnologia, 26 anos, pego um ônibus, dois metrôs e um trem para chegar ao trabalho. Para voltar, tudo isso, em ordem inversa. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Apenas um prefeito

Impecável o artigo de Vladimir Safatle na Folha de São Paulo desta terça-feira (3).

"A pior maldição de São Paulo é seu gigantismo. Por mobilizar um dos maiores orçamento da União, administrar a cidade parece não ser mais algo que tenha valor em si.


Ao contrário, São Paulo é apenas uma passagem, seja para voos mais altos, como a Presidência da República, seja para a utilização de seu peso político na construção de novos partidos, seja para a luta pela construção de hegemonias partidárias.


Há tempos a população paulistana não tem um prefeito, apenas um prefeito -alguém que queira simplesmente administrar a cidade e debruçar-se não sobre as taxas de juros do Banco Central ou dos grandes problemas do país, mas sobre o trânsito infernal da avenida Brasil ou a falta de bibliotecas na periferia."



E não é que é verdade?

Ser prefeito de São Paulo se tornou alavanca política. Assim, ao ocupar o cargo, não se pensa nos problemas da cidade. Pensa-se nas relações de influência, no poder, na emissão de opinião, no cargo e na visibilidade que a direção de Sampa lhe dá.

Foi assim com Maluf, com Pitta, foi assim com Kassab, o prefeito das proibições, como dizem por aí. Enquanto isso, continuamos presos no trânsito parado, trancafiados em nossas casas enquanto o rio sobe, enfurnados em shopping centers porque a cidade abre concessões para esses espaços. E falta espaço.

Safatle também provoca quanto à falta de projetos paulistanos inovadores de planejamento urbano, pois simplesmente não há qualquer planejamento urbano. A ciclofaixa, uma das poucas iniciativas com destaque médio, é apenas um pedaço de doce oferecido aos ativistas, é lazer, não é rotina, conceito, ideia. É domingo, enquanto São Paulo é paulsitana de segunda a sexta-feira, no horário comercial.

Ah, São Paulo... você precisa mesmo é de um prefeito.

Não é montagem, essa foto é REAL




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Lembrando que, em outubro, a gente deve escolher um prefeito.
Há candidatos para prefeito?

terça-feira, 6 de março de 2012

Sem caminhões na Marginal, sem gasolina nos postos

A gestão Kassab mostrou mais uma vez dar preferência ao transporte público individual em detrimento do desenvolvimento de soluções mais complexas e inteligentes para o difícil problema de mobilidade urbana na capital paulista. Nesta segunda-feira, 5, os caminhões foram proibidos de circular na Marginal Tietê nos dias úteis entre as 5h e 9h, e das 17h às 22h. Aos sábados, a proibição acontece apenas no período da manhã, das 10h às 14h.

A intenção é aumentar o fluxo de carros e a fluidez do trânsito. O problema começou quando os caminhoneiros decidiram interromper a entrega de combustíveis a cerca de 2 mil postos de abastecimento na cidade, em protesto ás nove horas de impedimento.

Foto: Jorge Araújo/Folhapress

A prova de que a medida municipal não teve o objetivo traçado foram os 159 km de congestionamento às 11h desta terça, 6, recorde da cidade no ano, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Em meio às reclamações das vias paralisadas, algumas queixas de motoristas que já sentiam o aumento das filas dos postos de gasolina ou notavam as bombas de etanol, gasolina e álcool secas em alguns estabelecimentos.

Não consigo entender qual a lógica da gestão paulistana ao proibir caminhões na marginal. Teoricamente, veículos pesados atrapalham muito mais o trânsito em vias estreitas e de baixa velocidade, em bairros, não em vias expressas com mais de três faixas. Pois caminhões têm velocidade reduzida, dificultam ultrapassagens, estacionam em lugares movimentados para abastecer lojistas, entregando ou recebendo mercadorias. Claro, não podemos exterminá-los, é o trabalho de seus condutores é necessário à cidade como um todo. Caminhão na Marginal não atrapalha... faz parte do [da falta de] planejamento urbano da cidade, já que tanto a Tietê como a Pinheiros são estratégicas para chegar a qualquer região da cidade.

O carro, cada vez menos utilizado para caronas e transporte de famílias, tornou-se veículos de um motorista em locomoção ao trabalho - especialmente nos horários de restrição. O espaço é ocupado apenas por um corpo à frente do volante.

Em 2009, a mesma gestão proibiu a circulação de ônibus fretados em 70 metros quadrados da cidade. A Zona Máxima de Restrição à Circulação de Fretados (ZMRF) engloba áreas carentes de transporte público de massa suficientes como abundância de linhas de trens e metrô, entre elas, a região da Berrini, Moema, Morumbi, entre outras. A justificativa, novamente, foi melhorar a fluidez do trânsito com menos ônibus parados para desembarcar ou embarcar passageiros.

Qual a lógica de retirar das ruas pessoas que prestam serviço a toda uma sociedade, que encaram jornadas excessivas em prol de um salário muitas vezes insuficiente? Bem sabemos os prazos malucos que fornecedores exigem, obrigando os caminhoneiros a dirigirem por horas sem paradas para descanso, muitas vezes impactados pelo sono e estimulantes capazes de prejudicar, inclusive, sua capacidade de responder a estímulos necessários para uma direção completamente segura?

Desta vez, com a pressão [muito bem pensada, aliás] da categoria, a prefeitura tem um grande abacaxi nas mãos. Como resolver?

Pena mesmo que os usuários de fretados não conseguiram encontrar um meio de protesto de impacto semelhante. Lotar vagões, em especial da linha 4-amarela do metrô e da linha esmeralda da CPTM, não traz eco suficiente para engravatados no conforto de seus sedãs lacrados e climatizados com ar condicionado. Infelizmente.

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Opinião de usuária cotidiana de metrô, ônibus, trem e também motorista.
Ou seja - me espremo nos vagões e arranco meus cabelos em frente ao volante.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

458 aniversários

Se São Paulo fosse assoprar 458 velinhas de seu bolo, não teria fôlego. O pulmão destruído pela fumaça proveniente da imensa frota de automóveis prejudicaria seu desempenho.

E há motivos para comemorar? Em uma cidade chorona, copiosamente como a água de tempestades desta época do ano, por tantas mazelas que ferem sua população sofrida? Em uma metrópole espalhada em quatro zonas, norte, sul, leste e oeste, mas concentrada em duas, oeste e sul? Que agride sua diversidade, ora conhecida como a mais peculiar e democrática do Brasil? Acumulando barracos e trapos nas fendas de concreto dentre as avenidas menos e mais movimentadas da cidade?

Sim, há motivos para celebrar.

A cidade ainda explode de alegria, com fogos estourando no céu, quando é gol do Corinthians.
Os amantes ainda passeiam de mãos dadas no parque do Ibirapuera.
As amigas ainda conseguem contar todas as fofocas do final de semana no longo trajeto de trem.
A senhora ainda consegue andar de graça no precário transporte urbano com sua carteira do idoso.
O metroviário ainda tem orgulho de trabalhar no meio de transporte insuficiente, mas o mais invejado do país.
Os amigos ainda se aglomeram nas portas de inferninhos na rua augusta.
Os trabalhadores ainda agradecem pela jornada de trabalho garantir o sustento diário.
A menina ainda canta alto ao volante, presa no congestionamento.

A cidade ainda é palco de muita vida.

Parabéns, São Paulo. Desejo-lhe muito amor neste ano por vir.


Esta foto diz muito daqui para mim. Eu, nascida no interior, crescida aqui. Lydia, vinda de Rio Branco, no Acre, trabalha e estuda aqui. Laura, também do Acre, de passagem. E Maju, paulistana.
No asfalto, na avenida símbolo do caos empresarial. De madrugada, pois a cidade nunca dorme.

São Paulo é feita, em grande parte, pelos que vem de fora, 24 horas, todo santo dia. E, mesmo com tantos problemas, todos encontram maneiras de sorrir.






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Mas bem que podia haver mais ação e solução
por parte dos governantes e cidadãos daqui

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vida de zumbis

A desocupação da Cracolândia, como é conhecida a região central de São Paulo conhecida por abrigar centenas de usuários de crack, é uma ação conjunta do governo do Estado e da Polícia Militar. Ontem, a Rota, grupo tático especial do órgão policial, entrou na ação.

A ação é parte do projeto Nova Luz, que revitaliza uma importante área cultural paulistana tomada pela marginalidade, dependência química e crime organizado. Nela, encontram-se pontos turísticos como a Estação da Luz, a Estação Júlio Prestes e a Sala São Paulo – principal palco de concertos, óperas e apresentações de música erudita da cidade. Tudo que não combina com marginalidade, dependência química e crime organizado.

As imagens do lugar, para quem não conhece, são chocantes. Caminhar por ali é semelhante ao cenário de seriados da moda, como The Walking Dead. Dependentes químicos da droga vagam a esmo vestindo trapos, com olhar vidrado. Muitos deles lavam vidros de carros no farol como maneira de abocanhar alguma grana para comprar pedras.


Imagem 1, da Folha de São Paulo, retrata uma ação policial na segunda-feira (9), na rua Aurora x rua Guaianases. Imagem 2, do Estadão, retrata o local em um dia qualquer (2011)

A ação, dividida em três fases, promete o policiamento, assistência social e manutenção da área. Tem sido, entretanto, frustrada. Não é possível simplificar algo tão complexo e profundo na nossa sociedade – o vício – em três passos, como um manual para o sucesso. Um, dois, três e pronto, o problema está resolvido.

Não há estrutura para assistência social suficiente para atender a tanta gente envolvida com o vício do crack. O que muitas pessoas não entendem, especialmente aquelas que expressam opiniões inflamadas [tem que descer o cacete todos estes vagabundos mesmo!], é a complexidade química que o vício desta droga causa no sistema nervoso do indivíduo ao ponto de ele largar tudo para viver uma vida de zumbi. Vagando nas esquinas, a condições precárias, tudo para ter o prazer momentâneo que o crack proporciona. Se a pessoa se submete a estas condições, não vai sair disso de maneira tão simples, em três passos, como propõe a ação da Cracolândia.

Cracolândia, em letras maiúsculas, porque ela expressa o problema da sociedade e é um retrato da disparidade de São Paulo. O espaço convive com o problema social ao lado da “alta sociedade” que frequenta os pontos da região. O real problema é que o problema social é de saúde, e é tão grande que tomou o espaço. Não deveria ser este o sinal de alerta que prova que São Paulo está com um caso tão grave, que não será eliminado de uma hora para outra? Esta alta sociedade que também sofre de outra coisa grave – a cegueira social para a disparidade que está a sua frente, ali, escancarada.

Moradores de Higienópolis, bairro vizinho à Cracolândia, se queixaram de viciados que “subiram” e tomaram as ruas nobres e arborizadas, expulsos de seu habitat natural. Temem a violência. Estavam acostumados com a cegueira social da vizinhança perfeita, uma ilha de riqueza no centro da cidade.

É hora de abrir os olhos.

Mais assustador que a vida de zumbi é ler os comentários de "pessoas comuns" que pregam a eliminação total dos crackeiros.

Para ler mais:
Reportagens da Folha de São Paulo aqui.
E do Estadão aqui, aqui, aqui.

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E vamos combinar - droga não é problema de pobre.
Classe alta usa cocaína, mais refinada e de "mais qualidade", se é que podemos assim dizer,
que o crack - pedras de resíduos provenientes do refino da cocaína.
Mais barato  e, claro, para os pobres a pior "qualidade" das drogas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Flor

Cinco pétalas repetidas destruídas pela água e esmagadas pelos pés ali na esquina. Desta vez, não apressados, mas preguiçosos após uma comemoração que merecia ao menos um dia a mais. Procurei as mais intactas, as mais aveludadas. Encontrei. Quase intacta. Cheirosa.

- Olha só... não sou só eu que gosto desta flor... – uma voz interrompeu o seguir do meu caminhar, quase na faixa de pedestres.        
- Como?
- Meu filho adorava estas florzinhas. – ela disse, com sua boca ligeiramente torta por uma paralisia sutil no canto esquerdo – A gente morava perto de Moema e ele parava na rua para pegar uma destas florzinhas para me dar. Ensinei a ele sempre escolher as do chão, nunca as da planta. Para não tirar a vida da pobre plantinha.

Mas aí veio o acidente e arrancou a vida dos braços da mãe.

- Hoje, ele teria 22 anos...

A conversa toda feita com minha coluna torcida para trás. Ela ganhou minha flor e foi embora. Eu levei outra para casa... Machucada, nem tão cheirosa, imperfeita. Porém, mais bonita. Esta aqui:


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Meu primeiro dia útil de 2012 me encheu de reflexões.
Feliz Ano Novo!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CGH: Uma insanidade em forma de aeroporto

1. Uma pista no meio da maior cidade da América do Sul
2. 38 voos por hora, mais ou menos um a cada dois minutos
3. Para chegar na pista, os aviões sobrevoam a Marginal Pinheiros e a Berrini, onde ficam os maiores prédios da cidade
4. Rodeado por avenidas por onde circulam grandes fluxos - Washington Luis e Bandeirantes
5. Difícil acesso
6. Pista curta



Por que, ó céus, é o aeroporto mais utilizado em São Paulo?

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Ainda assim, sinto-me pior pousando ou decolando no Santos Dumont (RJ).
Praticamente um porta-aviões.