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segunda-feira, 9 de março de 2009

Preto, pobre e preconceito

Há umas semanas perdi o hábito de ler nos ônibus urbanos. Durante uma entrevista com o dramaturgo Mário Viana, ele me destacou as histórias que acontecem cotidianamente e pouco percebemos por estarmos com os ouvidos entupidos com fones de ouvidos ou olhares ocupados em outdoors e leituras.

Semana passada peguei um ônibus da Paulista para Pinheiros, e escutei uma moça reclamando de um homem que esperava no mesmo ponto e provavelmente entraria no mesmo ônibus que ela. Que nós.

A julgar pelas roupas: ele, um homem negro e bem pobre, arrisco dizer até que era um morador de rua. De roupas velhas porém de tecidos grossos, exalava um cheiro de suor. Magro. Ela, uma moça negra também pobre, arrisco dizer até que era de classe média baixa. De roupas baratas que não combinavam, muito menos com as bijouterias penduradas. Gorda.

Quando entramos no ônibus (ele, ela e eu), fiz questão de sentar perto dela, que não parava de falar e se preocupar em fugir dele. Ela entrou muito rápido e empurrou alguns passageiros para sentar em um dos poucos bancos vagos. Ele demorou a pagar a passagem com moedas, o que me leva a crer ainda mais que era um morador de rua, já que não usou o econômico bilhete único. Entrou devagar e sentou em um banco reservado para deficientes.

O homem ficou sentado muito longe dela para incomodá-la, com um vácuo ao seu redor - seja pela aparência ou até mesmo pelo cheiro, que então se tornou insuportável. Mas ela ainda disparava comentários sobre o "preto pobre" que estava dentro do ônibus, "que absurdo, como o motorista deixou alguém como ele entrar".

Um dia após do dia internacional da mulher, esse episódio me fez refletir sobre minorias, a origem da data. Será que ela esqueceu que também era pobre, também era preta, também pegava o mesmo ônibus que ele? O que o impediria de embarcar, já que ele pagou a passagem e estava indo a algum lugar, mesmo que seguindo a esmo seu caminho de sem-teto?

Lembrei disso quando li esta notícia. Julgamos pelo que vemos e esquecemos o bom-senso em casa. Confesso que eu até fiquei com receio do homem sujo que estava no ponto de ônibus ao nosso lado. Mas tive nojo de mim mesma ao pensar que, ao ter esse pensamento, estava me igualando à moça que é parte de duas minorias (mulher e negra!) e fecha os olhos ao preconceito latente do ambiente metropolitano.

3 comentários:

Ligia Hipólito disse...

A questão mais triste com a qual dioturnamente me deparo na sociedade é o complexo. E um exemplo bem claro disso foi a situação descrita por você, Gabi. E o complexo, na minha ó(p)tica é ainda pior doque o pré-conceito por se tratar da rejeição a sua própria condição de existência. Sendo eu- mulher e negra, compondo, portanto, duas 'minorias'- assim categorizadas injustamente, já que no Brasil temos uma população massificada por uma maioria de negros e mulheres- procuro me estabelecer no que faço ou digo baseada na auto-estima e consciência do lugar que ocupo no mundo. Até porque, pensar diferente seria aderir ao clássico 'think foward'. E, longe de mim, ser alienada. Sendo um pouco romântica_ eu diria: se o Obama chegou ao posto de presidência da maior potência mundial, o que seria impossível pra mim??? Dificuldades -é evidente que enfrento... Mas 'tenho que me manter em movimento, a vida não é mole mas qualquer parada enfrento'

gabism disse...

agora fico pensando eu: quantas outras pessoas fariam esses comentários se estivessem acompanhadas e não sozinhas, para se calarem.

Luana Lazarini Loureiro disse...

Nossa, você me fez lembrar de cada história dentro dos coletivos! É tanta gente diferente, tanto sotaque...cada história!!!!!


Certa vez, conversando com o cobrador do ônibus questiono: Qual foi a coisa mais bizarra que você já presenciou?
Ele me responde: ah, uma vez uma mulher estava com seu marido, ou namorado e me perguntou toda empolgada se poderia passar por baixo da roleta! disse que era o maior "T" da vida dela,que ela sempre quis fazer isso! E ainda me pagou a passagem! - ele ressaltou que ela era gordinha!


haha para você ver...existe cada doido porai... da mesma forma que você aprende muito ouvindo os outros você se diverte!haha

PS.: muito bom seu texto...continue assim! =D